4. ECONOMIA 29.5.13

1. ENTRE DOIS ABISMOS
2. O SUSPENSE DE BERNANKE
3. ELES FALAM AQUI, MAS FAZEM L

1. ENTRE DOIS ABISMOS
A poltica de aumento nos gastos e incentivo ao consumo traz desequilbrios crescentes, aprofundando os saldos negativos no oramento federal e nas contas externas.
MARCELO SAKATE 

     O baixo crescimento brasileiro nos ltimos dois anos exps a fragilidade de crenas da equipe econmica. A primeira delas diz respeito  capacidade do estado de liderar o investimento necessrio para o avano da economia. Uma dcada depois da ascenso do PT ao poder, o pas continua a investir o equivalente a menos de 20% do produto interno bruto, o PIB.  um patamar inferior ao da maior parte dos pases em desenvolvimento, que chegam a aplicar o dobro na expanso da capacidade produtiva  e, por isso, crescem num ritmo mais acelerado e com inflao baixa. A poltica de concesso de incentivos ao consumo e ampliao dos gastos pblicos no se mostrou capaz de fazer a economia reagir. Ao mesmo tempo, a ao do governo fez surgir desequilbrios crescentes. Um deles  a inflao elevada. O outro eleito nocivo  uma ameaa dupla. So os dficits gmeos, ou seja, saldos negativos nas contas pblicas e tambm nas transaes brasileiras com outros pases. 
     Historicamente, o setor pblico gasta mais do que arrecada. Nos ltimos meses, entretanto, esse dficit se aprofundou. A pretexto de estimular a economia, o governo ampliou os gastos, enquanto promovia redues de impostos para beneficiar alguns setores. Com as despesas correndo acima das receitas, a dvida federal deixar de cair. Ficou abalado o pilar da responsabilidade fiscal, um dos sustentculos da estabilidade econmica. Novo homem forte do governo Dilma Rousseff, o secretrio do Tesouro, Arno Augustin, deu o tom das diretrizes da poltica fiscal. "Estamos deixando claro desde o incio do ano que, para 2013 e 2014  e provavelmente ser essa a poltica para 2015 e 2016 , o resultado primrio vai ser sempre uma varivel da economia, e no mais da dvida pblica em si", disse Augustin em entrevista ao jornal Valor Econmico. 
     Traduzindo do economs para o portugus, o secretrio deixou claro que a preocupao da poltica oramentaria no  mais manter a dvida pblica sob controle, mas dar incentivos  economia. Segundo Felipe Salto, da consultoria Tendncias, os nmeros recentes confirmam uma poltica fiscal expansionista. "Existe um impacto direto sobre a inflao, porque so gastos principalmente voltados ao consumo, como o pagamento a funcionrios e despesas com a administrao, e no gastos com investimentos", afirma o economista. Nos trs primeiros meses do ano, o governo ficou no vermelho em 32 bilhes de reais (incluindo as despesas com juros), uma piora de 150% em relao ao mesmo perodo do ano passado.
     Pela poltica em curso, o governo d com uma mo e tira com a outra. Para aliviar a presso sobre os preos, causada em boa parte por sua gastana, a equipe econmica decidiu conceder isenes tributrias a alguns produtos. O exemplo mais recente  o transporte pblico. Em So Paulo, o reajuste no valor das passagens do nibus e do metr foi inferior ao necessrio para cobrir a inflao acumulada desde o ltimo aumento (veja a seo Nmeros, na pg. 55). Os preos subiram menos por um pedido de Dilma, preocupada com o impacto inflacionrio. Em troca, o governo deixar de cobrar PIS e Cofins das empresas de transporte pblico. Em vez de controlar a inflao de maneira estrutural, a equipe econmica recorre a maquiagens que apenas camuflam a alta nos preos e ainda por cima pioram o estado das contas pblicas. Outro exemplo est na reduo no preo da eletricidade. O governo autorizou, na semana passada, a venda de ttulos pblicos pelo Tesouro para cobrir despesas adicionais com os subsdios nas contas de luz. A queda na tarifa ser bancada pelo aumento da dvida pblica. "No fim, saiu mais caro do que o anunciado, porque a dvida  paga pelos contribuintes", diz Salto. 
     A concesso de estmulos tambm faz o consumo interno avanar em uma velocidade superior  da oferta de produtos e servios. Se a capacidade  insuficiente, os preos sobem e as importaes aumentam. O pas voltou a acumular dficits na balana comercial, depois de quase uma dcada de supervits sucessivos. Levando-se em considerao tambm as importaes de servios e as transferncias de lucros, o saldo negativo nas contas externas atingiu 33 bilhes de dlares nos quatro primeiros meses do ano, praticamente o dobro do registrado no mesmo perodo do ano passado. Como proporo da economia, o dficit externo acumulado nos ltimos doze meses atingiu 3% do PIB. Trata-se de um patamar no registrado havia uma dcada.  um valor elevado. Ele significa que o Brasil precisa atrair investimentos estrangeiros ao redor de 70 bilhes de dlares ao ano para manter as suas contas internacionais equilibradas. Isso sujeita o pas ao humor dos investidores internacionais, em um perodo de incertezas por causa da diminuio da oferta de dlares no mercado mundial e da menor exuberncia chinesa (leia o prximo texto). 
     Na histria brasileira, no foram poucas as crises originadas dos dficits externos. Foi assim em 2002, nos meses que antecederam a vitria do PT, e tambm na segunda metade dos anos 90, com as crises do Mxico (1995), asitica (1997) e da Rssia (1998). Sem falar na moratria do pagamento da dvida externa, nos anos 80. Em comum, esses episdios foram marcados pela fuga de investidores estrangeiros e pela consequente disparada na cotao do dlar. As empresas enfrentaram dificuldades para honrar suas dvidas, a inflao subiu rapidamente e o pas caiu em recesso. H duas diferenas fundamentais agora, porm, a favor do pas: o ingresso macio de investimento estrangeiro, que praticamente atende a toda a necessidade de capital externo do pas; e o volume de reservas em moeda forte, que chegam a 375 bilhes de dlares. Convm, contudo, no desprezar o passado e a prpria realidade. A duradoura era de extrema abundncia de capital no mundo, decorrente das mais baixas taxas de juros da histria nas principais economias e de programas de compra de ttulos dos maiores bancos centrais do mundo, no ser eterna. Alm disso, a China no avana mais ao ritmo de 10% ao ano, e as commodities exportadas pelo Brasil deixaram de se valorizar como antes. 
     "No h risco iminente de crise, pelo contrrio. Mas a rapidez da deteriorao das contas do pas com o exterior chama ateno", diz Antonio Corra de Lacerda, professor da PUC-SP. "No h como sustentar por muito tempo um dficit crescente. A histria j mostrou que esse quadro leva a crises cambiais, desestabilizando toda a economia." So sinais de que o pas precisa apertar o cinto e corrigir os desequilbrios enquanto h tempo.

DFICITS GMEOS E CRESCENTES
Aumentam os saldos negativos nas transaes externas do Brasil e tambm nas finanas pblicas.

Saldo entre receitas e despesas das contas pblicas, em reais.
-13 bilhes 2012 (jan-mar)
-32 bilhes 2013 (jan-mar)

Saldo das transaes comerciais, servios e rendas, em dlares
-17bilhes 2012 (jan-mar)
-33 bilhes 2013 (jan-mar)

Fonte: Banco Central


2. O SUSPENSE DE BERNANKE
Os estmulos monetrios nos EUA ficam mais perto do fim.
     
     As consequncias do estouro da bolha financeira em 2008 s no foram mais dramticas em decorrncia dos 3 trilhes de dlares despejados na economia americana, nos ltimos cinco anos, pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). Quem comandou a operao foi Ben Bernanke, presidente do Fed. Bernanke  autor de uma tese acadmica segundo a qual a Grande Depresso de 30 foi to devastadora porque o Fed errou ao reagir cortando crdito, quando deveria ter inundado a economia com liquidez. No comando da torneira de crdito agora, Bernanke abriu-a ao mximo. Suas convices acadmicas, porm, como ensinava John Maynard Keynes, mudam quando a realidade muda. E a realidade agora  outra. S mais crdito e taxa de juros beirando o zero no so mais a resposta para os atuais desafios. Bernanke reconheceu isso na semana passada. "Se avaliarmos que a melhora na economia  sustentvel, podemos reduzir a compra de ttulos", disse o presidente do Fed, referindo-se ao mecanismo  de compra de dvida usado pelo banco para aumentar o dinheiro em circulao. Dependentes da liquidez farta e barata, os mercados mundiais reagiram defensivamente. 
     E o Brasil com isso? O perodo prolongado de juros extremamente baixos levou os fundos de investimentos internacionais a buscar alternativas mais arriscadas (e potencialmente mais lucrativas) para aplicar os recursos de seus clientes, como aes e ttulos de empresas de pases emergentes, entre eles o Brasil. Uma alta de juros pelo Fed, portanto, muda a equao e os ttulos americanos voltam a ser no apenas seguros, mas tambm mais lucrativos. Isso implica a repatriao de bilhes de dlares para os Estados Unidos  notcia ruim para o Brasil, cuja economia se esgueira entre o dficit externo e o interno (veja a reportagem ao lado). A retrao na produo industrial na China tambm afetou para pior os nimos dos investidores. O impacto foi particularmente sentido na Bolsa de Tquio, com uma queda superior a 7% na quinta-feira. Sob efeito dos incentivos monetrios do governo, as aes do pas acumulavam alta de mais de 50% neste ano. Um quinto das exportaes japonesas tem o mercado chins como destino; ento, o vacilo do gigante vizinho falou mais alto que os incentivos internos.


3. ELES FALAM AQUI, MAS FAZEM L
Com o discurso de erguer uma nova indstria, o Brasil pagou mais para produzir as sondas do pr-sal aqui. Mas elas esto sendo feitas na sia  e ningum pediu desconto.
MALU GASPAR

     De todas as promessas que se sucederam  descoberta do pr-sal, a mais celebrada previa a criao de uma indstria local para suprir a explorao da nova fronteira e impulsionar a economia. Em nome desse objetivo, o governo definiu que pelo menos 60% dos equipamentos para a prospeco de tal riqueza deveriam ser fabricados no Brasil. Pagar mais caro pelos itens made in Brazil seria o preo de erguer uma indstria quase do zero. Pois at agora nenhum novo navio de perfurao genuinamente nacional singrou os mares em direo a esse eldorado. Ao contrrio: os primeiros trs dos 29 navios-sonda encomendados pela Petrobras esto sendo produzidos do outro lado do mundo, em Singapura. Embora ningum admita publicamente, at os marlins da Bacia de Campos sabem que pelo menos um deles ser feito quase todo na sia: os outros dois correm o mesmo risco. Para quem circula no mundo do petrleo, no chega a surpreender. O que espanta mesmo so as cifras envolvidas: o Brasil pagar pelas sondas que vm da sia o mesmo preo acertado para produzi-las aqui.  um valor cerca de 400 milhes de reais acima do cobrado no mercado internacional, porque embute o custo da chamada curva de aprendizado  que considera o tempo e os recursos necessrios para atingir padres de competitividade global. Fazia sentido no Brasil, mas certamente no em Singapura. 
     O negcio comeou a perder a lgica financeira quando os trs estaleiros contratados para construir os navios no Brasil avisaram que no dariam cabo das encomendas dentro do prazo. No caso da primeira embarcao, a cargo do pernambucano Atlntico Sul, no havia outra sada seno trocar o fornecedor. Foi a que a Sete Brasil  empresa formada para contratar os equipamentos para a Petrobras  recorreu ao singapuriano Jurong, comprando por 1.6 bilho de reais um navio j em fabricao na matriz. O fato de o equipamento ser feito l, e no aqui, no fez baixar nem um centavo do preo. O valor foi idntico ao que o estaleiro de Singapura j estava cobrando pelos navios que construiria no Brasil. Justamente um deles, j se sabe, tambm comeou a ser produzido na sia, uma vez que as obras da nova base da Jurong, no Esprito Santo, ainda engatinham. O terceiro navio teve sua construo transferida para Singapura pelas mos de outra empresa de l, a Keppel Fels. Com sua subsidiria no Rio de Janeiro tomada de encomendas, no havia opo. Mais uma vez, deu-se adeus ao solo brasileiro sem se falar em preo. A Sete Brasil diz que no pediu abatimento porque as sondas sero finalizadas aqui, respeitando a cota de contedo nacional. Quem acompanha o enrosco, porm, garante que s com mgica isso ser possvel. Para se ter uma ideia, apenas o casco e a broca  componentes que certamente viro do exterior nos trs casos  representam 50% do valor do navio. 
     Construir no Brasil as sondas e plataformas do pr-sal  um compromisso de campanha do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva e pilar da poltica industrial de Dilma Rousseff. Alm de serem os itens mais caros e que mais agregam tecnologia, so os que  mais geram emprego. S a fabricao de um casco requer 2000 pessoas. Ao estabelecer uma reserva de mercado, o Brasil trilha o mesmo caminho de outros pases que se viram diante da riqueza do petrleo. No funcionou com todos, mas s com aqueles que estabeleceram metas e prazos para que os fabricantes nacionais ganhassem flego para competir globalmente. Foi assim que a Noruega se tornou a maior potncia mundial em tecnologia de ponta para a explorao em alto-mar e a Coreia do Sul, lder na produo de sondas. "No Brasil, falta concentrar esforos nos setores que realmente precisam de ajuda e fincar metas muito claras. Do contrrio, ser um tiro n'gua", avalia o economista e ex-presidente do IBGE Eduardo Guimares, autor de um estudo sobre o assunto. Um levantamento junto  indstria petrolfera deixa claro que, at agora, o contedo nacional no deslanchou. Das 104 sondas e plataformas lanadas ao mar desde 2003, o primeiro ano do governo Lula, 85% so totalmente estrangeiras. 
     Nos ltimos meses, os estaleiros do pr-sal enfrentaram de falta de mo de obra a turbulncias internas que levaram at a trocas societrias. Essa instabilidade lana dvida sobre futuras entregas e faz florescer nos bastidores uma intensa movimentao de empresrios para entrar no jogo. O consrcio Rio Nave, com dois estaleiros na Baa de Guanabara, fez chegar  Petrobras um projeto alternativo para as sondas. Na prospeco de novos negcios, o Quip (sociedade entre as construtoras Queiroz Galvo, UTC e Iesa) contratou at o ex-presidente Lula para dar palestra em sua sede, no Rio Grande do Sul. Na ocasio, Lula reafirmou diante de plateia numerosa a importncia do contedo nacional. "Se conheo a alma, a cabea e o corao da presidente, sei que ela no vai permitir retrocessos." Dilma, de fato, pediu  presidente da Petrobras, Graa Foster, explicaes sobre a transferncia das encomendas ao exterior. Mas a Sete Brasil j enviou sinais ao mercado de que no vai alterar os contratos, nem com as obras emperradas. Nessa toada, o que era uma bela promessa poder passar  categoria de engodo  e dos caros. 
COM REPORTAGEM DE HELENA BORGES


